Por um Punhado de Dólares

Quase todo filme de samurai do Akira Kurosawa ganhou uma versão Western. Mas esta, entre todas, deve ser a mais digna. Também não é qualquer um se não o mestre Sergio Leone assinando a direção.

A história de Yojimbo, o Guarda-Costas, é transformada sem muitos problemas para trocar espadas por pistolas. Com o clássico estranho-sem-nome de Clint Eastwood botando a testosterona sempre acima da moral, ganhamos bem mais do que aquele bang-bang mocinho contra vilão. Ainda que - ninguém é de ferro - deturpe um pouco o enredo original (como eu me lembro), a proposta se mantém fiel em essência.

Com tantos filme ruins usurpando as histórias dos seus (alguns sequer admitiram a referência), pode ser que Kurosawa tenha ficado um pouco mais aliviado ao ver este. Na medida do possível, é claro.





Por um Punhado de Dólares
(Per un Pugno di Dollari)
Itália, 1964
Direção: Sergio Leone
Gravado no Telecine Cult



Zodíaco

Não é um filme do mesmo impacto que outros do competente David Fincher (Clube da Luta, O Curioso Caso de Benjamin Button, A Rede Social) mas tem o seu valor. Fincher sabe fazer filmes que fluem em um ritmo rápido o que, para mim, é algo bom. Neste filme, no entanto, talvez seja demais.

É muita informação. Ainda que tenha duas horas e meia para despejar tudo, não é fácil absorver nem metade do que é mostrado. Isso porque Fincher é caprichoso com os fatos reais nos quais esse filme se baseia, que também não são fáceis de entender. É um dos casos mais intrigantes (e nunca solucionado) de serial killers no "folclore" americano.

Tem outro filme sobre o mesmo tema mas este é melhor e mais detalhista. Não só isso. Tem espaço nele para ir além dos fatos, destacando a visão e a experiência de alguns personagens. Não fosse isso, teríamos um documentário que, graças a 40 inserções comerciais da TNT, seria um desafio maior de assistir (mesmo pulando todos eles).  





Zodíaco (Zodiac)
EUA, 2007
Direção: David Fincher
Gravado na TNT



O Turista

* Filme presente na minha lista

OK! Para marcar a volta das atividades do blog com estilo... NOT.

Lixo de filme. Não sei porque entrou na lista se eu já sabia que seria ruim. Trama previsível, proposta fútil e cenas de ação sem graça. Difícil entender porque artistas do nível de Johnny Depp e Angelina Jolie topam gastar tempo com isso mas, bem, eu não sou ator pra saber. Só sei que os lábios da Angelina e os canais de Veneza não foram o suficiente para arrancar sequer um "Pô... Legal...".





O Turista (The Tourist)
EUA, 2010
Direção: Florian Henckel von Donnersmarck
Gravado na HBO



Um Homem Misterioso

* Filme presente na minha lista

Um filme sem nada demais. Tem classe, algumas influencias e referenciadas explicitas do western spaghetti. Mas a trama não tem referencia alguma, fica sem explicação e logo sem graça. Vale mais pelas belas paisagens da Itália, umas cenas de nudez e, para as meninas que gostam, George Clooney. Aliás, chamaria o filme só de "George Clooney" porque parece que o filme só existe porque teve o ator no papel do protagonista.

Mas não dá pra simpatizar com um personagem sem passado, sem uma aspiração legítima, sem algo para se identificar claramente. Não fica explicito em nenhum momento o que ele tem de bom ou o que ele tem de mau. Fica tudo muito perdido.

O filme é uma especie de debute de Anton Corbjin em obras desse gênero. Ele é mais especializado em clipes musicais, tendo trabalhado para algumas bandas legais como U2, Depeche Mode, The Killers, Coldplay e Joy Division.





Um Homem Misterioso
(The American)
EUA, 2010
Direção: Anton Corbjin
Gravado no Telecine Premium



Fora por um tempo

Motivo simples...

Lunar

* Filme presente na minha lista

Ficção científica inteligente, alternativa e de qualidade. Impossível não lembrar de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Dirigido por Duncan Jones, filho de David Bowie, que ainda não tem muitas obras no currículo mas se mostrou muito competente e promissor.

O protagonista (Sam Bell, interpretado por outro Sam, só que Rockwell) trabalha isolado há quase três anos no lado obscuro da Lua. Há poucas semanas de seu contrato acabar, vive a ansiedade de voltar para a Terra e sua família. Com o fundo silencioso, acompanhamos a rotina um tanto monótona até as primeiras coisas estranhas acontecerem. A trama começa e o filme brinca com promessas grandes surpresas ou simples alucinações.

Intrigante e reflexivo. Ideal para tem, no mínimo, nível dois em "gosto por ficção científica".





Lunar (Moon)
Reino Unido, 2009
Direção: Duncan Jones
Gravado na HBO



Bonequinha de Luxo

* Filme presente na minha lista

Fala-se de Audrey Hepburn, fala-se de Bonequinha de Luxo. Foi no papel de Holly Golightly que ela ficou marcada na memória do cinema. Além disso, um filme magistral, ao mesmo tempo engraçado e irônico, conhecido por ter revolucionado o gênero de comédia romântica. Dirigido criativamente e com um roteiro adaptado de um conto de Truman Capote. Impressionante ter levado o Oscar apenas pela melhor canção original e pela melhor trilha sonora. Nem Audrey faturou (perdeu para a peso-pesado Elisabeth Taylor, se eu não estou enganado).

Holly vive uma pseudo-independência sobrevivendo como uma bem sucedida acompanhante de luxo. Ciente do seu magnetismo sobre os homens, faz o que bem entender. Símbolo da liberdade sexual? Talvez sim, mas isso é controverso na visão moderna. Bom tema de discussão, na qual pode-se incluir mais personagens como a Catherine de Jules e Jim (assunto já debatido nos comentários do último post).

Essa mulher é irresistível tanto quanto é ingênua. Sonha em se casar com um homem rico, alguém que possa lhe presentear com as jóias da Tiffany's. Por trás de tanta superficialidade esconde, muito bem, um passado humilde mas sempre a beira de vir à tona - algo magnificamente exposto pela interpretação de Audrey e as falas do roteiro.

Personagem tão impactante que a trama do próprio filme passa a ser secundária. Pode ser hollywoodiana, mas é uma grande obra.





Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany's)
EUA, 1961
Direção: Blake Edwards
Gravado no Telecine Cult



Jules e Jim - Uma Mulher para Dois

* Filme presente na minha lista

É uma aclamada obra da Nouvelle Vague dirigida pelo renomado Truffaut e que, diz-se, marcou a década de 60. Imagino que seja pela premissa, digamos, levemente amoral (uma amizade entre dois homens que não se abala e se adapta à paixão por uma única mulher), sobretudo para a época. Engraçado, uma vez que a trama ocorre em um período ainda mais remoto, por volta da Primeira Guerra Mundial. Me admirei pelo estilo, mas também me revoltei pelo enredo.

Na montagem, o ponto alto. Há vários elementos criativos, como cenas nas quais toda a relevância são transferidos para detalhes, sombras, paisagens. Algumas falas são reforçadas por legendas que pipocam espontaneamente e uma voz em off narra algumas passagens como se fosse um livro (e viajando um pouco na maionese).

Na história, a suavidade e o humor se mesclam com momentos mais amargos ou novelescos. De grosseiro mesmo, só a atitude de Catherine que, apesar da bela atriz que a interpreta (Jeanne Moreau), começa como uma mulher de poucos aditivos, mas o suficiente para seduzir Jules e Jim e, posteriormente, sapatear como quiser em cima deles. O temperamento leviano da moça e a passividade dos demais personagens (não só dos rapazes) é o que irrita. 

Se alguma interpretação permite enxergar nessa personagem atitudes revolucionárias inspiradoras para as mulheres (ainda mais reprimidas nos anos 60), para mim soa egocentrismo puro. Catherine (e, por consequência, a trama) se guia por vontades e os sentimentos contraditórios e inconscientes de tão bipolares. Não muito diferente de algumas das minhas ex-namoradas. 





Jules e Jim - Uma Mulher para Dois
(Jules et Jim)
França, 1962
Direção: François Truffaut
Alugado na Cult Video



Os Esquecidos

* Filme presente na minha lista

Primeiro filme do Buñuel que vi. De reputação, sei que posso ser esperar duas coisas de uma obra dele: choque e viagem. Nesse aspecto, "Os Esquecidos" é um sucesso.

Há pouca influência surrealista dessa vez mas ela tem seus momentos. O filme se preocupa, sobretudo, em não amortecer. Então temos mais um exemplo de facetas cruéis da humanidade e todo esse papo. Morais da história a parte, é um senhor filme, com artifícios interessantes e inéditos e uma edição excelente.

Há algumas curiosidades que vêm como extra no DVD. Uma é o final alternativo, que nunca foi rodado e não faz muito tempo que foi descoberto. Nele, o desfecho é "feliz", provavelmente prevendo que o filme poderia ser censurado. Ainda bem que não foi.

E a outra é só pra revoltar os defensores de animais mesmo. Há um curta-metragem, "Terra Sem Pão", de brinde. Simula um documentário, mas foi narrado em francês e não disponibilizaram legendas, portanto não entendi patativas. Mas soube de dois fatos. Para fazer uma cena, mataram uma cabra só para gravar a carcaça dela caindo de um penhasco. Em outra, Buñuel mandou cobrir um burro (que já estava doente, teoricamente) de mel só para as abelhas o atacarem e o picarem até ele morrer. No "Os Esquecidos", só umas galinhas são mortas a pauladas.





Os Esquecidos (Los Olvidados)
México, 1950
Direção: Luis Buñuel
Alugado na Cult Video



Dodes'ka-den - O Caminho da Vida

* Filme presente na minha lista

Kurosawa é demais e esta é mais uma prova. Foi seu primeiro filme feito em cores e soube tirar o melhor proveito possível disso fazendo uma boa mistura com tons de artes plásticas - descrito na contracapa do DVD como pinturas de Kadinsky ou Modrian - e elementos das cênicas em uma grande obra da sétima arte.

Sem samurais desta vez. O filme trata vários personagens de uma favela japonesa. Foi, de fato, filmado em um lixão de Tóquio. O sofrimento e as condições adversas têm seus papéis, algumas vezes chegando a ser chocantes e macabras, mas também é prezado a descontração e as adaptações que tornam a vida suportável. Pequenas, mas importantes felicidades que o lado otimista de Kurosawa faz questão de mostrar.  E faz isso praticamente sem julgar e criar sentenças aos seus personagens, mesmo ao exibir os defeitos - e qualidades - de todos.


"Dodes'ka-den" é a onomatopeia do barulho que um bonde faz nos trilhos que um dos personagens acredita estar dirigindo enquanto circula pelo lixão. Apesar da qualidade, e de uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro, não foi bem recebido pelo público japonês. Foi um fiasco financeiro. Mais um fator que colaborou para a depressão do diretor, que tentou suicídio um ano depois do lançamento. Kurosawa havia vivido cinco anos em um distúrbio criativo e pessoal desde seu último filme, "O Barba-Ruiva", até "Dodes'ka-den". Demorou mais cinco anos para se recuperar com o seguinte, "Dersu Uzala".





Dodes'ka-den - O Caminho da Vida
(Dodesukaden)
Japão, 1970
Direção: Akira Kurosawa
Alugado na Cult Video